a batalha maiorhavia algum tempo que estranhos pensamentos se infiltravam. primeiro no sono. os sonhos fugindo ao seu controlo. trazendo despojos de pensamentos que sempre rejeitara. mais tarde, ao longo do dia. com
aleivosia. apanhando-o desprevenido. inquinando-o.
hoje acordara no
silêncio da madrugada com uma sensação incomum. uma intensa
comiseração tomara-o de assalto. vinham-lhe ao pensamento os sem-abrigo - com que sempre se cruzava no regresso ao confortável andar num condomínio de luxo. fechado castelo de senhor feudal – os trabalhadores por conta de outrem endividados...no banco expondo razões – tantas tão válidas afinal - pedindo-lhe possíveis renegociações comportáveis com os seus parcos rendimentos face ao desequilíbrio provocado pelo agravamento do custo de vida – e, contra o usual, um sentimento de dor tomava-o.
sempre detestara emoções que a mãe denominava de “humanas”.
O rosto da nossa humanidade dizia ela: caridade; empatia; solidariedade; compaixão….sim, pensava de si para si. tudo isso é muito bonito desde que daí me advenham benefícios. lucros. vantagens sob alguma forma….
o
misticismo da mãe bulia-lhe com o sistema nervoso. considerava-o fragilidade de espírito. nada mais. chamasse-lhe ela o que quisesse.
as longas histórias que, em criança, lhe contava de quando partira para a Índia em busca de desenvolvimento espiritual – a maior
preciosidade de qualquer ser humano. de como encontrara um guru e como passado alguns meses partira para as montanhas - com a roupa do corpo, uma velha manta, um púcaro, um tacho e uns bocados de
pão - e se isolara durante mais de um ano num
eremitério que nada mais era do que uma pequena caverna em que nem de pé cabia…
falava-lhe da importância das
mãos – instrumentos de trabalho e sobrevivência – de como elas
urdiam roupa com plantas que colhia na montanha e assim se protegia de morrer congelada, de como ganhavam vida própria e com ervas e flores que colhiam amassavam
unguentos com que massajava o dorido corpo. de como, com suavidade e gratidão, arrancavam pedaços de gelo ao
sincelo que durante mais de meio ano emoldurava a entrada da caverna, quase a fechando por vezes e assim sempre tinha a vital e pura água - de oração e prece, de agradecimento, e ainda universais símbolos de paz e fraternidade.
e as histórias e conselhos da mãe, que antes ouvia como fantasias ou delírios de um espírito frágil, dominavam-no com uma realidade que nada do que sempre fora importante para ele detinha agora.
reuniu a direcção do banco e passou a presidência alegando razões pessoais - de vida ou morte.
pensaram-no atacado por doença mortal, mas ninguém ousou inquirir. sabia que assim seria. nunca lhes dera espaço para qualquer intimidade, por mais banal.
a ânsia de ver, de viver na
infinitude branca e silenciosa de que a mãe lhe falara e de se encontrar ganhara finalmente a batalha.
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no
silêncio do entardecer o olhar enche-se de
misticismo ao fitar a
preciosidade que a água
urdiu pendendo dos telhados e das árvores.
sincelo feito luz e transparência. suave
unguento envolvendo, transformando o mundo num imenso
eremitério de calmaria e contemplação.
a medo, não quebrasse a
infinitude de brancura que tudo recobrira estendi os braços e, a
mãos ambas, sem
aleivosia nem
comiseração, acariciei as formas pingentes, como quem abarca o mundo feito alimento-
pao do espírito.